Logística
Era frio e eu não tinha trazido
sapatos. Isso mesmo: minha mãe tinha dito Se é uma viagem de 12 horas, depois
de um tempo vai começar a te dar uma agonia. O sapato vai apertar, coçar no pé.
O melhor é já ir de sandálias. É mais fácil de tirar no avião. Não dá chulé. Só
que em momento algum ela tinha dito Não leve sapatos. Sim, eu não deveria ter
feito as malas uma hora antes do vôo. Quem vem pra ficar e não traz sapatos?
Quando Dilma venceu as eleições,
meu número de aulas particulares duplicou. Um casal de médicos, um bancário e
uma nutricionista, um dono de uma rede de farmácias. Todos com um objetivo em
comum: sair de um país onde Aécio tinha perdido as eleições. Eles adulteraram
as urnas. Isso é culpa desse bando de desocupados que querem mamar nas tetas do
meu trabalho. Ah! Se em vez de trabalhar eu ficasse recebendo Bolsa Família.
Vamos todos às ruas lutar contra a corrupção: de verde e amarelo, não é por um
partido, é pelo Brasil.
Meu primeiro impacto em Toronto
foi logo ao descer do avião: era outuno e o clima era seco. Não tinha aquele
bafo molhado que acaricia quem respira Manaus.
Mas meu bilhete de loteria estava
vencido. Os médicos pararam as aulas. Tinham descoberto que eles só batiam
ponto no posto de saúde e depois se mandavam para o consultório particular. O
bancário e a nutricionista foram fazer aulas no Estados Unidos. O empresário se
entendiou logo no verbo to be e
trocou a afirmativa, negativa e interrogativa por noitadas no All Night.
Cheguei ao apartamento do AirBNB.
Tinha pego um táxi do aeroporto e não pude evitar de fazer a conversão para
reais. Uma fortuna. O local era provisório, mas confortável. Eu teria três
semanas pra encontrar um basement que
coubesse no meu orçamento. Toquei a divisão dos cômodos e senti uns felpos do
compensado. Naquele momento entendi porque as pessoas dos filmes quebravam as
paredes com tanta facilidade. Logo vi: naquela cidade eu era um edifício e me
faltava a estabilidade da pedra.
No cursinho em que ministrava
aulas de literatura, eu mantinha minha posição centro-esquerda pois sabia que o
dono era petista. Lá eu era livre fazer conexões entre O germinal e o marxismo. Os alunos liam a segunda geração
modernista e tinham aula sobre Casa-grande
& senzala. Eu não tinha nenhum direito trabalhista, mas o valor da
hora/aula estava acima da média de mercado.
É o meu primeiro dia em Toronto,
vou fazer pelo menos o reconhecimento do bairro. A calça segunda pele estava
quentinha, o casaco era pesado pro padrões manauaras. O vento era agradável.
Decidi ir ao cinema no shopping perto de uma praça, umas três quadras da minha
casa. O sentimento era o mais agridoce possível. Enquanto brincava de soltar
fumaça com o ar de minhas narinas, sentia o gosto da lascívia e da indefinição,
da ebuição e do impreciso, do frenesi e do indeterminado. No meio do caminho,
comecei a sentir um frio enorme nos pés e apressei o passo para alcançar logo
meu destino. Por algum motivo que a lógica desconhece, não havia aquecedor
dentro da sala de exibição do filme. Fiquei encolhido por duas horas enquanto a
película rodava. Eu esfregava as mãos para gerar atrito, soprava um ar quente
nelas, mas os pés pareciam baixar a temperatura do corpo inteiro. Assim que o
filme terminou, saí correndo. Todo mundo estava bem agasalhado, com looks
impecáveis, almofadados e cálidos. Eu com um casaco que tinha vindo de brinde
na compra de um DVD, que daria certo pro clima de São Paulo, quem sabe, mas
nunca pro de Toronto. Na rua, um homem que vinha na mesma calçada, na direção
oposta, atravessou a rua ao me ver. Eu deveria estar parecendo um mendigo. Duas
quadras antes da minha casa, avistei um restaurante. A luzes amareladas
sugeriam um clima tropical. Não tenho nada parta comer em casa. É aqui que eu
vou parar.
O mês de maio é complicado para
os cursinhos, tente entender. É um mês em que temos muitas desistências por n motivos. É um pai que pagou o início
do ano, mas agora tá sem dinheiro. É um aluno que começou, mas agora percebeu
que não vai conseguir passar porque não está acompanhando a turma. É um outro
cursinho que fez um preço mais barato. É alguém que precisa focar mais em
passar no colégio e terminar o ano do que em passar no vestibular. É alguém que
decidiu fazer faculdade particular. A gente tem tido reclamações sobre a sua
aula. Os alunos tem saído. Eu já vi você em sala. Você é um grande
profissional, mas entenda meu lado também. Vou ter que te substituir, porque
não posso arriscar perder os alunos. É assim que acontece. Já aconteceu com
outro professor. Ano passado, eles reclamaram do professor de física. A gente
tirou e em dois meses eles pediram pro cara voltar. Eu não quero que você fique
com uma má imagem. Isso vai te queimar até em outras instituições. Se a gente
forçar a barra, mesmo que você consiga emprego em outro lugar, vão perguntar:
quem é o professor? Quando falarem seu nome, os alunos vão desistir. Não estou
te demitindo. A gente vai só descansar sua imagem. Foi o dia em que me tornei
um ator global.
O lugar cheirava a café.
Sentei-me num cantinho aquecido, cara de assustado. A garçonete me entregou o
menu com um sorriso imenso e foi super prestativa. Pedi 3 panquecas. Queria
provar todas. A com maple syrup era
viscosa e doce demais. A com pedaços de morango, enjoativa. Só gostei da com chocolate chips que tinha um balanço
maior no sabor. A garçonete retornou, perguntou se eu queria água da casa. Foi
a primeira pessoa que me tratou com afeto no país. Passei 20 dólares de gorjeta
no meu cartão de crédito.
Minha ajuda pra você não pode ser
financeira, meu filho. Com essa troca de governador, meu salário tá atrasado há
40 dias. Posso te ajudar a traçar um plano. Você sabe que pode sempre contar
comigo. Só dinheiro é que eu não posso te dar. Você tem que traçar um plano.
Você já tem um emprego em vista? Você pode trabalhar lá? O que um professor de
inglês vai fazer num país onde falam inglês? Não dá pra fazer as coisas sem
pensar, meu filho. Sei lá, pai. Você acha que a situação do Brasil vai
melhorar? Se já tá difícil pra quem tá em São Paulo, imagina aqui em Manaus. Se
você realmente quer isso, pega o dinheiro da tua poupança de aposentadoria.
Gasta agora e depois vai guardando dólar que vale mais. O nome disso é
investimento.
Pedi informação na Subway debaixo
do meu prédio na manhã seguinte. Precisava trocar meus dólares por dólares
canadenses. Tinha de pegar um metrô, saltar três estações depois, subir as
escadas, entrar num ônibus. Anotei num papel o nome de um local que ele disse e
segui as instruções. Entrei em uma loja de conveniência, mas não perguntei onde
ficava o Exchange. Ele saberia que eu
tinha dinheiro comigo. Ao invés disso, olhei o papel e vi escrito: Dundas
Square. Perguntei onde ficava e ele disse que estava um pouco longe. Sugeriu
que eu não fosse andando. Pegasse um streetcar.
Eu devia ter entendido algo errado. Ao adentrar o veículo, pedi ao cobrador que
me avisasse quando chegássemos perto do destino. Uns 30 minutos depois,
levantei-me e perguntei se ele tinha se esquecido de mim. Não. Ainda falta.
Mais 10 minutos e nada. Até que vi um local que ficava perto da minha casa.
Exausto, decidi saltar ali mesmo. Era uma praça que imitava a Times Square em proporções menores.
Olhei pro meu papel e percebi o erro que tinha cometido. Aquela era a Dundas Square. O atendente da Subway tinha
me dado um ponto de referência para que eu soubesse voltar. Eu ia passar mais
um dia sem sapatos.
O tucumã estava perfeito:
carnudo, oleoso e docinho. O queijo coalho bem derretido, dissolvia na boca
como muzzarela. Era o sabor
daquela tapioca que eu queria guardar.
De sapatos, arrumei um trabalho
informal. Não tinha SIN number, então pegava o que viesse pela frente. Fui
parar em um restaurante. A cozinha tinha cheiro de gordura, eu passava o dia
tirando aquele grude espesso das panelas. No fim da semana, o dono não me pagou
e eu não tinha pra quem reclamar.
Tem mais uma coisa que eu quero
comer antes ir embora: açaí. O nosso, é claro. Não aquela gosma que vendem no
Sudeste. Quero ele bem geladinho, no máximo com o granulado da farinha de
tapioca ou do uarini, a que tivesse. Não tem açaí, moço. Nessa época do ano, o
melhor que produzem, mandam pra fora. Pra gente não sobra nem o resto.
Toronto só é uma cidade santuário
em teoria, ela me falou. Só era pra eles pedirem nosso status de imigração se
tivessem uma razão bona fide. Mas eu já fui chutada de abrigos e tive que
correr no meio da noite nesse frio dos infernos. A polícia não refresca, eles
não seguem as ordens superiores. Aproveita aí a tua BrazilFest. Dá a impressão
de que todo mundo é amigo. Você conversa até com gente com quem nunca falaria
se estivesse no nosso país. É de graça e você tem que guardar o resto do teu
dinheiro.
Quando a reforma trabalhista foi
aprovada, eu interpretei que era um sinal pra abandonar o navio antes que eu me
afogasse junto.
Você vai fazer o que quando
acabar aqui? Não sei. Estou aqui faz um ano e um quebrado. Sinto saudade até
daquela algazarra. Meu visto vai vencer, segunda vou ter que estar cedo na obra,
ajudando os outros pedreiros. Só queria fumar um beck e esquecer a vida. Ela
bebeu o resto da caipirinha em um gole só. Me beijou e eu senti o bafo de álcool.
Posso passar a noite na sua casa? Vem que eu vou te levar pra conhecer o melhor
da cidade.
Mãe, eu vou pra lá ganhar em
dólar. Vai sobrar dinheiro pra eu lhe enviar. A senhora não vai mais precisar
ir no SUS, vai ter plano de saúde. Quando as coisas melhorarem, eu te levo. Não
tem país melhor. Despachei a bagagem. Peguei os cartões de embarque. Ela me deu
um abraço apertado. Me liga assim que chegar lá. Pode deixar. Me fala mais uma
vez o que você vai fazer lá. Vou fazer sucesso. Cruzei o portão de embarque.
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